Carta a Francisco
3:46 PM Edit This 0 Comments »
Caro Francisco,
Ah, Francisco, porque não me gerastes junto com todas as outras? Seria tão, tão, tão mais leve existir somente numa canção. Ser, ser, ser uma moça de louça, de éter, divina a dançar no sétimo céu. Não, não, não sei andar sem os pés no chão. Por favor, Francisco, me digas porque não nasci com o talento de ir embora da Rita? Ensina-me a sair de cena destroçando tudo, calando todos os violões e levando comigo tudo que possa significar vida.
Porque tu não me inventas agora? Ainda há tempo, salva-me! Fecha os olhos e busca-me numa madrugada morta ou em meio ao buzinar dos carros engarrafados. Anota meus traços num caderninho. Ou então, se preferires, posso debruçar-me numa janela e, com meus olhos tristes, guardar a dor de todo esse mundo. Já sei, já sei, essa é a Carolina e eu sou apenas real.
Mas, olha, Fancisco, eu não estou pedindo muito, quero apenas ser uma das tuas, ter meu nome entre acordes e tons. Sei que minha sorte será outra e que a sina de tuas mulheres nem sempre é bem estar. Vi o que fizestes com a outra, feita para apanhar e boa de cuspir. E, perdoa-me o atrevimento mas que sina destes à pobre dama, heim, Francisco? Francamente! Não tivestes pena dela? Tenho até medo de ti! E Bárbara, Santo Deus? Porque não construístes um mundo onde o amor delas fosse possível? Que mania de perseguição com essas moças que só fazem padecer em tuas mãos.
Olha, quando a inspiração te alcançar e te inundar de mim, vê se não me jogas entre os leões, viu, Francisco? Pensa numa sorte melhor do que lavar chão numa casa de chá. Faça-me heroína, torna-me efêmera e eterna num paradoxo musical. Eu quero ser somente tua imaginação numa melodia sublime e vagar para todo sempre em rodas de samba, em cantigas de ninar ou no canto sofrido de uma lavadeira.
Com urgência, Eu.
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